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Fernando Oliveira Baptista, o tributo a um homem de grandes saberes

 

 

 

Fernando Oliveira Baptista é, indiscutivelmente, um homem de grandes saberes. Saberes sobre a forma como as sociedades, na sua incontável variedade, se organizam e transformam. Sobre a vida material e sobre as relações, impossíveis de delimitar, com o imaterial, o simbólico, o institucional ou o político. A sua forma de olhar as coisas foi sempre a de quem dá substância ao que queremos chamar Economia Política. Estuda os campos e as políticas públicas, incluindo as agrárias, os meios rurais e a agricultura que neles possa existir, estuda os territórios e as periferias, aí incluindo a Europa do sul. Estuda sobretudo a sua mudança. Interessam-lhe, por isso, o espaço e o tempo, sobretudo o tempo longo. Compreendeu como poucos que a aquilo que ainda damos certos nomes já é outra coisa para a qual vamos procurando designações. Como sublinham todos os que o conhecem acresce a tudo isto uma rara sensibilidade, um humor indisfarçável e um disponibilidade imensa[1].

 

Este ano, “um número relativamente reduzido, mas diversificado, de colegas e colaboradores chegados do Fernando e alguns dos seus alunos de mestrado e doutoramento” escreveram o livro “Racionalidades e Dinâmicas em Espaço Rural. Escritos em homenagem a Fernando Oliveira Baptista”[2]. E ofereceram-lho. A proximidade é sempre onde está tudo. Por isso, os próximos de quem recebeu o tributo trouxeram para esta obra não apenas as muitas coisas sobre que ele tem escrito como aquilo que ele é – a história do rural, do agrário, da terra, do capitalismo e das política, a análise comparativa, o professor num departamento de economia e sociologia de um instituto de agronomia (a busca da interdisciplinaridade é antiga, tem muitos lugares e repetimos sempre, com o mesmo fito, o que aprendemos com outros), o investigador viajante pelo mundo, o de cá de dentro e o de lá de fora (“o importante é partir!”, para criar novas proximidades, acrescentarei eu). Numa segunda parte do livro mostra-se como se cria escola, isto é, como o contributo individual se torna colegial e se formam muitos campos que regressam em nome coletivo porque assim foram formados – floresta, incêndios, propriedade, trabalho, rural, agricultura, desigualdades, desenvolvimento, ambiente, construções sociais – eis algumas das palavras-chave que representam o problema múltiplo que Fernando Oliveira Batista encaminhou para muita gente e que aí está, estudado, disponível, relevante.    

 

A Associação Portuguesa de Economia Política considera Fernando Oliveira Baptista um dos seus. Um daqueles que permite que saibamos do que estamos a falar quando falamos de trabalho sereno, profundo e interdisciplinar sobre a vida material, institucional e simbólica das sociedades, sobre o poder e as deliberações, sobre as continuidades e a mudança. Sobre Economia Política, portanto.  Assinalamos aqui o livro que em sua homenagem foi feito pelos seus colegas e discípulos e associamo-nos ao tributo que lhe foi muito justamente prestado.

 

José Reis, presidente da direção da Associação Portuguesa de Economia Política

 

[1] A mesma com que em 1977, ao telefone, logo respondeu a um estudante que não conhecia, membro de uma associação de estudantes de uma academia em greve numa universidade fechada pelo governo, para ir a Coimbra, a um Teatro Académico de Gil Vicente cheio falar a sobre a reforma agrária de que tinha sido ministro. 

 

[2] Maria João Canadas, Ana Novais, José Lima Santos, Pedro Reis, Raul Jorge e Carlos Amaral (Coordenadores), ISA Press, 2018, 462 pp.

 

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